Wiki Creepypasta Brasil
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Eu devia ter mais ou menos uns dez anos e estava sozinho em casa. Como qualquer criança, tinha receios de ficar naquela solidão, especialmente em dias chuvosos. Os sons brincavam com meus ouvidos e, sentindo-me desamparado e vulnerável, enxergava sombras em cada canto (exatamente como qualquer outra criança faria quando privada da companhia adulta em um local escuro). Meus pais haviam saído para jantar e decidiram que eu já era suficientemente crescido para ficar sozinho. Sabia que não retornariam por algumas horas, pelo menos. Determinado a provar que era "maduro o bastante" para ficar em casa sem supervisão, decidi assistir ao Cartoon Network, na esperança de que os desenhos acalmassem meus nervos. Contudo, o sinal estava prejudicado pela chuva. Embora ele tenha voltado parcialmente, a imagem na tela oscilava entre estática e cenas congeladas, enquanto o som seguia tocando. A Turma da Mônica começou a ser transmitida, um dos meus desenhos favoritos.

A abertura tocou entre uma chuva de estática e distorções cromáticas, até que o nome do episódio surgiu: "O Fim". Não me recordava de ter assistido a um episódio com aquele título, e fiquei frustrado por não poder apreciá-lo adequadamente devido à chuva. Quando o episódio começou a ser exibido, reconheci uma das cenas. Era aquele em que o Cebolinha e o Cascão utilizavam ketchup para fingir que estavam mortos. Os dois estavam provocando a Mônica, como sempre faziam, mas a cena com a reação dela pulou algumas vezes e congelou, deixando marcas borradas na tela da televisão.

O som continuou a tocar, porém era impossível compreender qualquer palavra que a Mônica dizia. Inclinei-me no sofá, esforçando-me para captar melhor o áudio, quando uma explosão de estática irrompeu em volume máximo, como um grito. O som da estática e do trovão causado pela chuva lá fora se mesclaram em um só. O episódio prosseguiu, apresentando alguns defeitos na imagem, mas sem travar tanto.

O barulho da estática enviava um calafrio estranho por todo o meu corpo, como se estivesse sendo observado por algo. Algo que espreitava de um canto invisível. O Cebolinha e o Cascão brincavam com a Mônica, chamando-a de "gorducha" e "dentuça", como de costume, mas o som parecia distorcido e entrecortado. Nunca vou ter certeza se foi exatamente isso que ouvi, mas em um momento fatídico em que o som "rachou", por assim dizer, consegui vagamente escutar o Cascão (ou pelo menos uma voz muito parecida com a dele) dizer: "Sua gorda". O áudio simplesmente deslizou pela minha audição, como se estivesse em uma camada abaixo do som normal. Após isso, a expressão de Mônica não era mais a mesma de sempre; agora, ela parecia assustada e, por trás da voz dela (que por sinal estava bastante distorcida), pude ouvir o choro de uma criança, escondido na estática, como se viesse de trás de mim. Olhei para as paredes ao meu redor várias vezes, apenas para encontrá-las vazias.

Os traços do desenho pareciam diferentes, com uma paleta de cores estranha que alternava entre o opaco e o saturado, o que causava um leve desconforto nos meus olhos. Não sabia ao certo se era devido à estática ou não. Às vezes, as cores não se encaixavam perfeitamente nas linhas do desenho. Como de costume, após uma perseguição, Mônica lançou seu coelhinho em direção ao Cebolinha, mas desta vez ele o pegou no ar antes de ser atingido. Após isso, uma expressão doentia e febril tomou conta do rosto do Cebolinha, algo estranho para um personagem de desenho animado. Ele segurou a cabeça do coelho e, em um movimento lento e pesado, arrancou-a. Gotas de sangue escorreram do corte no pescoço. O coelho de pelúcia parecia me encarar com seus olhos vazios e sem vida, enquanto a estática ao fundo dava a sensação de que chovia dentro da minha casa. A escuridão dos cômodos ao redor parecia querer invadir minha pequena sala.

Comecei a me sentir desconfortável com a janela atrás de mim, pois a sala ficava no primeiro andar e, como havíamos nos mudado recentemente, ainda não tínhamos cortinas nas janelas. Algo na expressão da Mônica parecia completamente errado; havia um desespero sufocante em seu rosto, mas a voz da dubladora continuava doce e amável como sempre, uma voz familiar, exceto pelo choro persistente que, em um momento, se transformou em gritos. Mônica pegou uma pedra e acertou em cheio a cabeça do Cebolinha. O som foi um baque surdo, não parecendo o som vindo da animação.

A cabeça do Cebolinha se dividiu em duas partes, revelando carne maciça e sangue realista por breves instantes. Esfreguei meus olhos, sem ter certeza se o que tinha presenciado era real. Não sabia se aquela cena malfeita era intencional, como se fosse uma foto recortada e fundida com a animação, ou se a culpa era novamente da estática. Cascão parecia horrorizado, com respingos de sangue em seu rosto. Nesse momento, a imagem pulou e piorou cada vez mais. Por alguns frames apenas, Cascão apareceu mergulhado em sangue, com os braços abertos e os olhos fechados.

Mônica abriu um sorriso diabólico lentamente e seus olhos moviam-se de forma desnatural e até distorcida. Em seguida, Cebolinha e Cascão foram mostrados no chão, com suas cabeças abertas, expondo nervos e músculos, como se fosse uma imagem de acidente sobreposta na animação. Por baixo, ainda era possível ver o desenho original com ketchup nas cabeças. Não me lembro de ter gritado, mas as lágrimas embaçaram minha visão. Tentei me levantar e alcançar o controle remoto, mas um grito emergiu da estática e surgiu uma imagem de Mônica com as órbitas dos olhos vazias, bem no centro da tela. Eu desejava fechar os olhos, mas não conseguia.

O episódio corta para uma tela preta, e Cebolinha, Cascão, Magali e Franjinha aparecem, todos olhando para mim. No entanto, algo parece estar errado, era como se estivesse encarando cadáveres. Sansão reaparece e gotas de sangue escorrem, parecendo real, enquanto o barulho da estática se torna ensurdecedor. Nesse momento, a luz se apaga repentinamente. Fico imóvel na escuridão por um tempo que parece interminável. Não me atrevo a mover um músculo até ouvir meus pais chegando de carro pelo portão da frente. Não tenho coragem de contar a eles o que acabei de presenciar.

Ficamos sem luz durante a noite toda, e no dia seguinte acordei com minha mãe brigando comigo por causa da mancha vermelha no tapete. Essa experiência jamais sairá da minha memória.

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