Wiki Creepypasta Brasil
Advertisement

-Certo, Matias. Terminamos por hoje. Você está fazendo um ótimo progresso, parabéns.

O garoto aceita o pirulito da doutora e com tímidos movimentos sinaliza sua saída.

Suas sessões eram bastante construtivas e Matias aos poucos se desenvolveu bem. Parara de urinar a cama e chorar toda vez que ficava sozinho. O consultório psicológico não ficava muito longe da casa de Tadeu, porém a caminhada levou o menino a devaneios recorrentes: o acampamento de verão, as mortes, o sumiço do seu celular.

“-fiu fiu.

-Olhe, Mat. Não deixe a mãe te intimidar. Esse app fica ligado o tempo todo. Se ele percebe seu assobio...

- fiu fi fiu.

-...ele emite um som.

-prim prim.

André sorria para ele. Era um bom mecanismo. Não gostaria de perder seu primeiro celular: sua mãe ficaria furiosa. O irmão o ajudara nisso. Pegou o aparelho da mão dele e o colocou no bolso da bermuda. O ônibus já apontara na esquina. A mãe chamava na porta.”

As lembranças se esvaíram um pouco e, apesar da ansiedade para ver o melhor amigo, queria colocar a cabeça em ordem. Diminuiu os passos. Acompanhou a paisagem lentamente com os olhos.

Tadeu ficara realmente atordoado com tudo aquilo. A imagem do garoto miúdo encolhido em um canto da parede do galpão perpassou pela mente de Matias.

“Era uma noite de sábado. Todos já estavam deitados no galpão do acampamento em esteiras improvisadas. As barracas foram desprezadas por conta da furiosa chuva externa ao cômodo. Raios rasgavam o céu e trovões arrepiavam as espinhas dos colegas de turma.

Todos juntos em um rincão encerado, alguns já dormiam, outros, fingiam não estar espantados com a tempestade. As luzes lá fora repentinamente se apagam após um forte estrondo vindo do céu. Algum disjuntor cedera à descarga e sobre o lugar incidia apenas o luar manchado de rápidos riscos de chuva. Alguma menina soltara um abafado grito de pavor.

O resto aconteceu muito rápido.

Junto com a água batendo no teto de amianto, pancadas surdas chegaram quase ao ouvido de todos, logo com gritos de pânico e choros de dor. Matias vira algumas lanternas se acendendo sobre sua visão e logo sendo derrubadas por passos apressados, atropelando aqueles que estavam no chão. Não tardou para Matias ser pisoteado também.

Os gritos aumentavam, as crianças se levantavam sem saber o que acontecia. Estava escuro, mas alguma luta estava acontecendo. Seria um bicho? Mais gritos, lanternas caindo, gente se arrastando pelo chão, o som de tecido se rasgando e líquido escorrendo. Matias não via nada.

O pouco que se levantara, logo fora empurrado contra a parede. A cabeça bateu violentamente e sua visão atordoou-se. Onde estava seu celular? Apalpou o pijama, desceu as mãos ao chão e procurou a fronha de seu travesseiro. O aparelho com esforço encontrou a palma de sua mão. A tela se acendera. Mais gritos, passos desesperados. Algumas luzes também brilhavam lá dentro, para em seguida encontrarem o chão.

Estava tremendo. Tinha medo. Qual era mesmo o número da emergência? Matias só queria sua mãe. Passos largos se aproximavam dele. Qual era mesmo o número da emergência? Outras crianças próximas gritavam, caíam, perante uma figura bruta e ofegante que chegava cada vez mais perto de Matias.

Matias suava, seu peito explodia. Escreveu uma mensagem apressada ao irmão. Se este a receberia, o menino não sabia. "SOS - Acampamento de Verão...". A sombra rastejava pela escuridão. Pisava sobre as esteiras, pesado e rápido, o alcançou.

A presença ficou estendida em sua frente. A respiração acelerada, o rosto escondido naquele breu. Não dava para ver, mas sua mão se estendeu ao dispositivo de Matias. Tomou-o de sua posse violentamente e com um golpe delirante desequilibrou o garoto ao chão. Logo, estava sozinho e com a cabeça ardida em dores. Para onde ele fora tão depressa?”

Matias passou pela banca de jornal e perfumes. Os passos se atrasaram um pouco. Pelos seus olhos, passou a cena que talvez nunca lhe seria apagada da memória: “puderam ser vistas lanternas fora do galpão. Com esforço, as portas se dobraram para dentro e uma forte luz que acompanhava os zeladores e professores iluminou o dormitório.

Encharcados, correram até o contingente de alunos aprumados no canto. Matias ainda estava pousado onde levou o nocaute, mas via o feixe luminoso mirando em seus colegas e no cenário a sua volta. Rostos vidrados e molhados de lágrimas. Soluços. Gritos. Corpos. Sangue.

Tadeu abraçava suas pernas, retraído, sozinho, soluçando e com os olhos arregalados do outro lado do salão. Tremia.”

-"A polícia não encontrou mais nenhuma evidência que sustente o caso do Acampamento de Verão. Após um mês, o assassinato das seis crianças segue sem resolução e os poucos vestígios não apontam para um suspeito plausível. Essa história sem dúvida é um dos maiores mistérios da história de noss...".

“-Ei, vamos desligar essa tevê um pouco, não é?

A mãe olhava para ele.

Na mente do garoto, apenas a voz do policial. “Tudo sumiu como fumaça. Não há arma do crime, as lanternas quebradas. Celulares desaparecidos. Será difícil saber o que houve aqui”.

-Bem, termine seu lanche que logo te deixarei na doutora Brenda. Espero que esteja feliz por hoje.

Ela sorri para o filho.

“Certo, garoto. Você foi o último. Se tivermos mais perguntas, irei até você”. Diz o homem após ouvir o relatório do colega.

-Eu sei que você bem que queria ir à casa do Tadeu há muito tempo.

A mulher beijara a cabeça do menino. Seus pensamentos voltam-se para o lanche da tarde.

-A doutora achou uma boa ideia você ir visita-lo. Só não seja rude com seu amigo. Ele ainda não digeriu isso tudo.

A mãe fez uma pausa e se arrepiou.

-Quem já digeriu, não é?

Ela solta um riso amarelo. O garoto termina seu leite em um gole e se levanta da cadeira.

-Vamos, então.”

Seria uma boa visitar o Tadeu. Não conversara direito com o amigo desde então. Sem dúvidas, seria muito bom ir de novo a sua casa. A ideia fez o menino acelerar os pés. Soubera que ele ganhara uma bola nova de futebol e um novo jogo de videogame. Não importava. Havia perdido uma partida de Mortal Kombat na última vez lá, aproveitaria uma revanche, sim senhor.

Chegara à casa de grade, no final da ruazinha perto do mercado. O portão estava encostado. Não hesitou em entrar. Chamara pela mãe do colega. A tia não respondeu. Ninguém respondeu.

Adentrou a casa e foi ao quarto do amigo. Também ninguém. Não sabiam que ele viria? Passou os olhos pelo quarto e viu a coletânea de DVDs e o console de um lado do cômodo. O colega havia muitos novos jogos, mas o que interessava a Matias estava em uma capa logo ao lado das novas.

Passou os dedos pelo plástico. Mortal Kombat. Ansiava jogar logo com o amigo Tadeu. Batia o pé em sincronia com a música-tema arranjada em sua mente, até assobiava a sequência de notas.

-fi fi fi fiu.

-prim prim

A escrivaninha vibrara ao seu lado. Estranhou e continuou a música de abertura.

-fi fiu fiu.

-prim prim

Certo. Aquilo deveria ser uma coincidência. Virou-se para a gaveta da mesinha e repetiu o som.

-fi fiu fiu.

-prim prim

Estendeu a mão, receoso de sua ação. Não poderia ser. O que estava fazendo ali? Seu celular acendera-se no fundo do repartimento, pedindo carga.

O coração de Matias acelerara. O que aquilo significava? O que poderia ser?

Chegou a uma tardia conclusão, não antes da porta do quarto se fechar por trás de suas costas.


Advertisement