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Lúcio estava olhando as flores que voltaram a decorar a paisagem nos fundos da sua casa. Era o seu lugar favorito desde que era um menino e deixava seus pensamentos vagarem para longe enquanto seu olhar se perdia nas árvores frente ao pequeno bosque visto da sua varanda. Na pequena aldeia em que nasceu e foi criado, contavam-se muitas lendas sobre espíritos que se escondiam entre aqueles galhos, brincando e assustando os mais fracos e de imaginação mais fértil. “Bobeira de gente simplória”, pensava Lúcio todas as vezes em que uma dessas histórias parava nos seus ouvidos.

De fato, podemos concordar que era histórias infantis, até. Cheias de monstros malvados, rituais envolvendo pentagramas e bruxas de muitos anos atrás. Puro folclore, convenhamos. Lúcio era melhor do que isso. Herdara de seus já falecidos pais um ceticismo que o deixava até um pouco amargo, mas, pensava ele, imune a essas crendices populares.

Por isso, ele sempre encarava o bosque e nunca nem sequer tremeu quando ouvia uma porta bater sem que nenhum vento passasse ou quando seus olhos o enganavam e qualquer homem mais tolo poderia jurar que viu um vulto passar em frente a um espelho antigo. Lúcia era um homem guiado pelos fatos e pelo que era tangível; não havia necessidade de recorrer ao misticismo para fenômenos que a ciência conseguia explicar perfeitamente bem.

Ele não poderia ser mais diferente do que seus vizinhos naquela pequena cidade esquecida por qualquer progresso. Ali era uma terra de gente simples, que recorria aos deuses, seus e de outras culturas, para explicar tudo. Havia lendas para todos os gostos, casas mal-assombradas e espíritos que vagavam nas pequenas ruas, com rostos sem olhos e histórias de punições eternas.

Numa terra de crentes, quem pede fatos acaba sendo deixado de lado. Lúcio sentia a solidão de não acreditar nas histórias do seu povoado, mas ele já havia aprendido a conviver. Afinal, pensava ele, de que me servem amigos ou até mesmo uma namorada que acredite em toda aquela besteira de bosque mal-assombrado?

Quando pequeno, de tanto ficar encarando aquelas árvores, uma cozinheira que trabalhava em sua casa na altura dizia em tom sentenciador “cuidado, menino. Quando se encara muito esse bosque, ele começa a te encarar de volta. Guarda os teus olhos se não quiser ver mais do que pode”, enquanto fazia o sinal da cruz várias vezes. Seus pais riam-se desse episódio todas as vezes, mas o pequeno desejava ver esses tais olhos entre as árvores. Uma anedota sobrenatural pode tornar quem a conta muito interessante, não é?

Durante anos, esperou que o bosque o encarasse de volta, mas nunca viu nada além de galhos, pequenos animais e, por vezes, viajantes perdidos desesperados por informações. Conforme o tempo passava, ele via que não havia nada de especial nele ou no bosque e as lendas começaram a ser esquecidas. Nada de olhos ou histórias incríveis.

Hoje, porém, as coisas estavam prestes a mudar.

Lúcio esperava o jardineiro, que ficou de chegar mais tarde para limpar algumas folhas caídas e frutos que começavam a apodrecer no chão. Por isso, quando ouviu o barulho das folhas no bosque, tratou logo de cumprimentar.

- Alô, seu Constantino. Estava mesmo à sua espera para limparmos esse chão.

O barulho das folhas começou a ficar mais intenso, como se alguém estivesse correndo entre elas.

- Não precisa correr, homem. Não quero que se machuque!

- Obrigada pelo cuidado, Lúcio. Também não quero que você se machuque.

Disse uma voz de alguém que não era o jardineiro.

Lúcio olhou o bosque com mais atenção e então viu os tais olhos dos quais a velha cozinheira sempre tinham alertado. Olhos sem cor definida, grandes demais para a distância em que estavam. Olhos que fizeram o corpo de Lúcio gelar como nada nesse mundo nunca tinha chegado nem perto de conseguir.

Os olhos se aproximavam cada vez mais e agora ele podia ver que não eram apenas olhos. Era alguém. Uma mulher de aparência normal, mas que não conseguiríamos descrever. Todas as vezes que Lúcio olhava para ela, sua aparência parecia mudar, tão rápido que, quando ele começava a prestar atenção nos detalhes, já era outra pessoa. Seus olhos eram a única coisa que se mantinha constante. Aqueles olhos grandes e sem cor que ele julgou ser o bosque o encarando.

- Alô, boa tarde – Lúcio conseguiu responder, depois de sabe-se lá quanto tempo encarando aquela figura de mil feições – Outra viajante perdida?

Ele tentava soar tranquilo, mas havia um tremor na sua voz que entregava o quão apavorado ele estava. Lúcio repetia mentalmente que não havia nada de errado naquilo; era apenas uma mulher perdida no bosque. Mas alguma coisa dentro dele sabia que isso não era verdade, havia algo nela e naqueles olhos que os fatos e a ciência de Lúcio não conseguiam explicar.

- Pode-se dizer que sou uma viajante perdida, Lúcio -  disse a mulher, rindo-se enquanto seus traços mudavam mais uma vez – Mas eu já me perdi há muito tempo. Tanto tempo que eu já nem me lembro mais como é não estar perdida.

Ao terminar a frase, ela riu de um jeito pavoroso. Não era uma risada macabra que se costuma imaginar, mas o riso daquela mulher parecia vir de um lugar muito distante, como um eco, embora eles estivessem a menos de dois metros um do outro.

- Quem é você? – Perguntou Lúcio. Ele não iria admitir que estava com medo, mesmo que tivesse que controlar a sua mão para não fazer o sinal da cruz. Sua última explicação agora é que aquilo fosse uma brincadeira dos aldeões – uma brincadeira muito bem elaborada, é verdade.

A mulher se aproximou de Lúcio, com aqueles olhos sem cor fixos nos seus. Seus cabelos mudavam de cor e de tamanho de forma tão rápida que ele já não conseguia acompanhar e sua boca escancarava um sorriso com mais dentes do que o normal, ou assim parecia.

- Eu sou o fato, Lúcio. Afinal, a sua cozinheira não estava mentindo quando dizia que, um dia, eu ia pegar os seus olhos para mim.

E riu aquela risada terrível mais uma vez.

Lúcio tremia. Como diabos aquela mulher sabia da cozinheira?

Ele respirou fundo, desviando o olhar daqueles olhos medonhos. Era uma cidade pequena, ele lembrou. Qualquer pessoa que morava lá saberia que D. Madalena tinha sido cozinheira dos seus pais. E todo mundo na cidade pensava que o bosque tinha olhos. Até agora, tudo poderia ser racionalmente explicado.

Exceto aqueles olhos sem cor e o fato daquela estranha mulher parecer mudar de aparência todas as vezes que ele se concentrava muito nela. “Um estranho fenômeno com a luz ou, quem sabe, uma alucinação”, Lúcio pensou desesperado. Pensando bem, aquela almôndega de ontem não estava muito boa. É, talvez seja isso.

- Não, Lúcio – disse a mulher, se colocando novamente de forma a olhá-lo nos olhos - Não é uma alucinação causada por uma comida estragada. Eu sou real.

Ao dizer isso, estendeu seu braço cheio de veias saltadas e encostou na mão de Lúcio. Nessa hora, o pobre homem há havia abandonado todo a sua compostura e deixou que o medo o dominasse quase que por completo.

A mulher ria tanto e tão alto que as folhas atrás dela pareciam danças com a sua risada. A luz do sol e as flores da primavera recém-chegada pareciam zombar de todas as histórias de terror que ele já ouvira antes. O medo se esconde entre os raios de sol, e não deles, pensava Lúcio.

A mulher foi até a casa e pegou uma cadeira, como se ela fosse uma amiga íntima. Ao se sentar, Lúcio começou a encarar o chão, com medo de fitar aqueles olhos mais uma vez. Quando ela falou, ele tentou de todo o jeito ignorar, mas parecia que a voz dela era o único som que ele podia ouvir, parecia que vinha de todos os cantos e até de dentro dele.

- Sabe, tem muito tempo que eu tento falar com você. A sua cozinheira sempre o alertava, mas você nunca parava de olhar. Por isso, eu pensei que você logo me responderia. Mas eu errei!

Ela deu um suspiro tão profundo que pareceu que todo o ar do mundo tinha acabado por um instante.

- Eu agitei folhas e bati portas, como um espírito tolo, mas nunca consegui sua atenção. Geralmente, os céticos resistem por pouquíssimo tempo aos meus chamados. Você foi o primeiro em muitos anos que conseguiu me evitar por tanto tempo.

Ele quis responder, mas sua voz tinha sumido. Não sabe como soube, mas soube que ele só voltaria a falar quando aquela estranha mulher a deixasse.

- Posso dizer que fiquei profundamente magoada com você. Você não apenas me ignorava por ser rude, você genuinamente nunca acreditou em mim. Você até quis acreditar, não é? Mas não conseguiu.

Ela tinha agora um tom magoado, que fazia Lúcio tremer de forma tão intensa que seu corpo chegava a doer.

- Olha para mim, Lúcio. Você não queria tanto um fato? Eu estou aqui, não estou?

Lúcio levantou a cabeça de forma tão rápida que qualquer um que visse a cena saberia que sua vontade não teve nada a ver com aquela decisão. A mulher parecia ditar tudo o que aconteceria e que todo o mundo obedeceria às suas vontades.

O homem ofegava e apertava os punhos com tanta força que a unha perfurava a pele da palma nas suas mãos. O que aquela mulher faria com ele?

- Por que eu nunca consegui ver você? – Ele perguntou. Sim, ele teve vontade de perguntar isso. A mulher tinha olhos sem cor e deixava a entender que vigiava Lúcio havia muito tempo e tudo o que ele quis saber era porque ele nunca tinha conseguido vê-la antes.

Ela abriu um sorriso muito grande enquanto respondia:

- Porque eu preciso que você fale comigo antes.

Ela sussurrava, mas, como os barulhos do mundo ao redor não conseguiam ser ouvidos por Lúcio, aquele sussurro soou como um grito. Um grito de mil vozes que falam baixo – isso não fazia sentido nenhum.

- Faz sentido, Lúcio. Você sabe que faz.

- Não leia meus pensamentos – disse Lúcio, como quem volta a si. Podia tolerar todo aquele teatro com monstros de olhos grandes, mas não poderia admitir que seus pensamentos fossem invadidos.

A mulher riu novamente, mas dessa vez era uma risada divertida, como se Lúcio tivesse contado a melhor piada do século.

- Eu não preciso ler pensamentos, seu tolo. Vocês sempre pensam a mesma coisa, eu só estivesse nessa situação vezes demais.

- O efeito seria mais assustador de noite – a coragem de Lúcio estava voltando aos poucos. Se agarrar ao fato de que aquela mulher apareceu de dia, por alguma razão, pareceu contrariar qualquer evento sobrenatural. Talvez ela fosse só alguém perturbada querendo pregar uma peça.

- À noite eu tenho muita competição – ela respondeu com indiferença – gosto de uma entrada triunfal.

- Bem, eu realmente tenho muito o que fazer, madame. O que a senhora quer?

A mulher encarava Lúcio com curiosidade.

- Eu vim te ver e deixar você ver, Lúcio. Mas você ainda não acredita em mim, não é?

A voz dela o assustava outra vez. Ele apertou o braço da cadeira em que estava sentando com força e começou a rezar baixinho. Ele inventava as orações, visto que nunca tinha aprendido nenhuma – rezava também para que Deus não fosse muito exigente com a formalidade das preces.

- Você gosta de fatos e despreza as histórias da vila, não é? Saiba, Lúcio, que a maioria das coisas existem, vocês é que não conseguem enxergar. Se convencem que o escuro não fala com vocês e que não há nada sob a cama quando vão dormir. Preferem não ouvir quando vento uiva e os mortos sussurram pedidos no seu ouvido e esquecem quando os demônios invadem os seus sonhos. Fingem que não veem meus olhos entre as árvores e colocam um peso nas portas que se abrem e fecham sem motivo. Ignoram meus pedidos e esquecem as orações.

- Crendice de gente simples...

Lúcio parou de falar quando a mulher se levantou impaciente.

- As histórias são contadas por uma razão, Lúcio. As lendas correm para que vocês não se esqueçam que não estão sozinhos aqui.

Ela se levantou rapidamente e, com os braços estendidos, foi na direção do homem.

- Se não acredita em mim, eu posso mostrar.

Enquanto ela colocava seus polegares ossudos dentro das órbitas de Lúcio, uma dor inimaginável se propagou pelo corpo do homem. Parecia que suas veias estavam em brasa e que cada músculo do seu corpo havia sido esticado até quase arrebentar. Depois do que pareceram horas, ela finalmente o soltou e, como um boneco sem vida, Lúcio caiu no chão e lá ficou por muito tempo.

Quando acordou, já era noite. Nenhum sinal da mulher. A cadeira que ela havia pegado já não estava mais lá. Lúcio evitou olhar para qualquer lugar por tempo demais enquanto voltava para casa o mais rapidamente que pôde com o seu corpo dolorido. Evitou olhar para o bosque e ver olhos o encarando de volta.

Aquela noite estava ainda mais escura que o normal, já que todas as luzes da casa estavam apagadas. Quando chegou à porta, começou a abri-la e, enquanto ouvia o rangido estridente das dobradiças castigadas pelo tempo, rangido esse que enchia a casa como um grito agoniante, Lúcio notou que a porta estava pesada e quase que relutante em abrir.

“Maldita casa velha”, ele pensou.

Empurrando a porta com muita força, xingando baixinho devido à dor excruciante no seu corpo, ele notou um par de mãos que empurravam a porta pelo lado de dentro.

Lúcio soltou a porta como se a mesma tivesse dado choque. Esfregou os olhos em um movimento involuntário, mas o par de mãos continuava lá, zombando da sua descrença e impedindo que a porta fosse aberta.

- Que...

Ele começou a dizer, mas lembrou da mulher, da estranha mulher de olhos grandes do bosque, que o alertou que as coisas precisavam que ele falasse primeiro. Suando frio, evitou falar qualquer coisa, não importa o que visse.

O par de mãos finalmente decidiu que empurrar a porta já não tinha mais graça e Lúcio conseguiu entrar em casa. Arrastou seus dedos pela parede, buscando o interruptor. Antes da luz finalmente iluminar a antiga cozinha, Lúcio viu o par de mãos, agora junto a um corpo de um menino com os órbitas vazias, lábios pequenos e um jeito triste.

O homem encostou-se na parede, se recuperando do susto, embora ainda tivesse tempo de ver o menino se afastando, se perdendo no restante da imensa casa.

Mesmo com a luz acesa, a cozinha ainda parecia escura, como se um véu bem negro bem fino estivessem cobrindo seus olhos. Aliás, por falar em olhos, estes doíam no rosto de Lúcio, como se a fraca luz fosse fatal às suas retinas.

Tomando muito cuidado para não falar nada, Lúcio andou em direção a todos os outros cômodos procurando o interruptor nas paredes. Ele sabia que era melhor que as luzes ficassem acesas, embora se recusasse a admitir qualquer medo.

A luz já não iluminava mais com antes e, talvez por isso, ele agora conseguia ver rostos nas sombras. Rostos de velhos e crianças, sorrindo e chorando, amaldiçoando e implorando por ajuda, o seguiam por todo o lado da casa.

Pares de mãos mexiam nos objetos e mudavam tudo de lugar. Depois, risadas distantes acompanhavam aquelas mãos para outro cômodo, para mais escuridão.

Ao passar pelo espelho, Lúcio encarou o seu reflexo por um segundo e gritou o grito que estava preso em sua garganta por muitos anos. Com órbitas vazias, seu reflexo o encarava sorrindo um sorriso sem alegria e com mais dentes do que ele lembrava de um ser humano adulto ter.

Ao correr, esbarrando em todos aqueles vultos lamuriosos ou raivosos, Lúcio correu para o banheiro, pensando em recorrer ao estoque de remédios no armário e procurar algo para dormir, apagar, morrer.

- Cuidado, menino. Quando se encara muito esse bosque, ele começa a te encarar de volta. Guarda os teus olhos se não quiser ver mais do que pode.

Era voz da cozinheira, mas quem dizia era a mulher. Aquela mulher de antes, a mulher que havia roubado seus olhos.

O sorriso dela estava ainda mais escancarado, indo de uma orelha à outra, mostrando dentes agora muito pretos. Suas feições já não mudavam mais, pelo menos não tão rápido quanto antes.

- Sabe, Lúcio – ela começou, com sua voz saindo como num assovio sussurrado entre os muitos dentes daquele sorriso – gostei da aparência que o seu medo escolheu para mim. Não me sentia tão bonita havia muitos anos.

Gargalhou enquanto Lúcio começava a chorar. Ele sentia as lágrimas enchendo os buracos onde antes estavam seus olhos e, para confirmar o seu pavor, levou os dedos ao rosto e sentiu o vazio nas suas órbitas.

- Eu peguei seus olhos, menino. Por isso os meus são tão grandes – continuou a mulher, divertindo-se ainda mais com o pavor do homem – sabe, os olhos humanos são coisas muito curiosas. Eles deixam vocês enxergarem apenas o que querem.

Ela permecia encarando as órbitas vazias de Lúcio, com aqueles olhos sem cor que, agora o homem notava, não tinham pálpebras. Olhos sempre constantes. Lúcio tentava piscar, mas era em vão. Nada mais conseguiria cobrir o vazio e agora ele enxergava tudo, todo o tempo.

A mulher se foi, mas os outros rostos continuaram na casa. Rostos de pessoas que pareciam familiares, rostos que ele nunca tinha visto. Ele pegava pedaços de conversas entre eles, coisas sem sentido, mas que arrepiavam até o seu último fio de cabelo. Ele ouvia orações e lamúrias, sentia o cheiro de morte.

Lembrou então de todas as lendas daquela pequena aldeia. A lenda da menina que encarou o bosque por tempo demais, arrancou os próprios olhos e os deixou no altar da velha igreja, dizendo que já não precisava deles para ver. Lembrou da lenda do velho que matou toda a família e foi encontrado dias depois, com os olhos de todos eles, tentando encaixá-los nas suas órbitas vazias. E, por último, lembrou também da lenda do rapaz que fez pouco do bosque, rindo e dizendo que nada ali poderia colocar medo, e, pouco tempo depois, foi encontrado chorando em frente a um espelho, arrancando todos os seus dentes com um velho alicate e com pregos nos olhos, implorando por perdão.

Lúcio lembrou apenas dessas duas lendas porque num canto do quarto, estava uma menina de órbitas vazias limpando um par de olhos enquanto repetia “Dona moça que aparece quando todos os outros ainda dormem, olhe bem e pegue os meus olhos. Já não preciso mais deles para ver quem das sombras vem comigo brincar”.

Do outro lado, estava um velho também de órbitas vazias e de aparência anêmica, com feridas espalhadas pelo corpo e exalando um cheiro pútrido, cercado de pares de olhos de todas as cores, alguns já parcialmente decompostos, outro ainda pulsantes, como se tivessem acabados de ser retirados. Com seus dedos finos e com unhas amareladas, ele pegava alguns aleatoriamente e tentava encaixá-los nos buracos em que antes estavam os seus próprios olhos. Por um instante, ele parecia ter conseguido e seu rosto cadavérico se abria em um enorme sorriso desdentado, mas o olho logo caía, fazendo um barulho grosseiro, e o velho começava tudo outra vez, sussurrando numa voz chorosa que “precisava de olhos para parar de ver”.

Perto da porta, estava um rapaz alto e bonito, que sorriu para Lúcio. O sorriso, agradável no começo, começou a aumentar pelo rosto, rasgando a pele e expondo a carne podre daquele jovem. O rapaz, então, virava-se de frente a um e, horrorizado com a própria aparência, enfiava pregos enferrujados nos olhos, enquanto urrava de dor. Depois de perder os olhos, seu rosto se contorcia ainda mais. Agora, pensou Lúcio, ele se deu conta que é com as órbitas vazias que se enxerga todo esse horror.

- Eu peguei os olhos de todos eles, sabe, Lúcio? Eu peguei os olhos de todos que não acreditaram. Agora você acredita em mim, menino?

- Eu acredito – berrava – por favor, eu não quero mais ver!

Os vultos agora se aglomeravam ao redor de Lúcio, todos em silêncio, finalmente.

Ele teve que reconhecer, então, que pedir por fatos não valia a pena. Havia coisas demais no mundo. Pediu para ser crente e deixar aquilo tudo apenas na imaginação. Por mais macabras que fossem, as histórias era ainda melhor do que o mundo escuro em que vivia agora que sabia a verdade. 

A mulher riu seu último sorriso e Lúcio implorou para que aquilo acabasse.

Até hoje, na pequena vila que ainda continua presa em seu marasmo interiorano, conta-se a lenda do homem que teve seus olhos roubados pelo bosque. Aliás, contam os mais velhos, se você prestar muita atenção ao som dos ventos nos dias mais quentes, pode ouvir a súplica do pobre Lúcio, implorando para conseguir, ao menos, piscar.

Ka Henry (discussão)Ka Henry

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