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O chamado do Gato

Por quê? Nós somos iguais, mas eu não posso sair. Por que eu? Nós somos iguais, mas ninguém olha para mim. Por que eu? Somos iguais,somos iguais, nós somos iguais, mas...

- Vocês não são iguais.

- O que – olhou em volta à procura do emissor da voz. Nada... o quarto estava vazio como de costume. –Tem alguém...  quem está aí?

- Por que você está aqui?

Papéis voaram da sua mesa.

- Quem é você?! – falou com a voz trêmula – É proibido entrar aqui!

- Por quê?

As portas do armário se abriram em um estrondo, por maior que fosse o medo do menino, não conseguia se mover.

- Pare com isso! Está bagunçando tudo, idiota!

- Por que é proibido entrar aqui, garoto? – jogou suas roubas pelo chão, a voz invisível não iria para até conseguir uma resposta.

- Eu... eu não sei!

Mais roupas iam sendo esparramadas pelo quarto.

- Pare com isso! Eu estou dizendo a verdade.

As gavetas se abriram.

- É por minha causa! – estava desesperado.

Por um segundo, tudo ficou parado. Apenas o barulho de sua respiração era audível, como se assim que ele parasse, o silêncio fosse capaz de machuca-lo.

- Por quê?

- Eu não sei, está bem? Vá embora!

- Hum, acho que entendi porque ninguém vem aqui. O outro menino é bem mais amigável que você.

- Isso... eu...ora! – balbuciou confuso, de quem ele, isso, essa voz, estava falando? – Eu só...só sou grosso com você.

- Sério? Por quê?

- P-Por quê? Por que eu não sei quem você é.

- E você sabe quem as pessoas são?

- Como assim?

- Você é grosso com quem não conhece. Você está preso aqui. Digamos que alguém abra essa porta, uma pessoa qualquer, você também será grosso com ela? Afinal, também é uma desconhecida.

-...Não.

- Exatamente. Então por que é assim comigo?


- Eu...eu nem ao menos posso vê-lo...e ainda arruinou meu quarto. Você não parece alguém confiável.

- O gêmeo renegado está me chamando de suspeito? Ha, ha, ha, ha! – o menino estremeceu e apertou suas cobertas, a risada fazia com que todas as portas batessem e a cama tremesse. Pareciam rir junto à voz misteriosa – Nós somos parecidos, sabia?

- E-Eu discordo plenamente!

- Céus, pare de tremer tanto, garoto. Apesar das semelhanças, seu irmão tem um espírito centenas de vezes mais forte que o seu. Tenho que fazer força para me conter, seria tão fácil engoli-lo agora mesmo. – um lápis rolou pela mesa.

- Você encontrou meu irmão? - as palavras saíram com mais amargura do que esperava.

- Sim, há alguns dias atrás. Ele é um humano muito... muito interessante.– os armários se fecharam e as madeiras do chão estalavam uma por uma  - creck, creck, creck - acompanhando os passos da voz – Ha! Finalmente posso sentir algo além do medo, vejo que consegui sua atenção, criança. Está curioso. Tem algo que queira perguntar? Relevante desta vez.

Estava hesitante, aquilo era a primeira coisa que conversava há meses. Ela não parecia tão ameaçadora, quanto aos outros que o visitavam, muito pelo contrário, a voz era melodiosa e gentil, calma, e não tinha nenhum resquício de medo ou nojo em suas palavras, chegava a ser até amigável. Como se falassem de igual para igual.

- Onde está o seu corpo? – olhou para os lados – Tudo tem um corpo. Se quer que eu confie em você, mostre-me o seu.

- Oh! Eu esperava algo como “Por que está aqui?” ou um “O que quer de mim?”. É o que costumam perguntar.

-...Eu não achei que responderia...

-Tudo bem, você tem uma boa linha de raciocínio. Porém, um conceito muito precário de existência, por que um corpo definiria o que é real ou não?

Por um instante ambos ficaram calados. Apesar de não emitir nenhum tipo de barulho, a criança sentia Aquilo o observar atentamente. O seu irmão passara por isso também? Teria sentido medo? Não, não teria e isso o frustrava. Por mais forte que quisesse parecer, Aquilo o assustava tremendamente.

-Está bem. Mas que teimosia, céus.

O vento arrebatou as janelas e invadiu o quarto. Cacos de vidro dançaram pelo ar entre rajadas violentas. Pareciam raspar o seu corpo,  arranhões se formavam em sua pela, papéis e peças de roupa que também rodopiavam e atingiam sua face. Correu para debaixo da cama rapidamente e fechou os olhos com força, só voltando a abri-los quando tudo se acalmou.

-Garoto? Garoto? Ora, por que está aí?

Com o coração acelerado e olhos lacrimejando, botou a cabeça para fora.

-O que você fez?!

-O que foi?

-Fui atacado por minhas próprias roupas! Estava tentando me matar?!

-Pare de reclamar, foi você que insistiu. Veja, eu estou com o tão requisitado corpo.

Olhou para os lados, mas não encontrou nada além da recente destruição.

-Céus, aqui garoto.

Antes que se movesse, algo pulou na sua cabeça e dela aterrissou no chão. Um gato pequeno e gordo, com pelo cinza e olhos azuis – que apontavam cada um para um lado – o encarava com algo, que preferia interpretar como um sorriso.

Não demorou muito para reparar um detalhe, algo vermelho pingava de sua barriga.

-I-Isso... é sangue? – nunca havia visto sangue antes. Nas revistas, às vezes o ilustravam com uma mancha preta, vermelha e até mesmo azul, já nos livros, o descreviam como a “Flor Vermelha”. Suas ideias sobre ele não poderiam estar mais erradas. Era mais denso do que água e escorria lentamente pelo chão, sua cor - ah, a cor - era o tom mais lindo de vermelho que já vira em toda sua vida.

-Pode tocar se quiser.

-N-não – balançou a cabeça saindo do transe – Por que ele está assim?

-Por quê? Você esperava que eu entrasse em um corpo vivo?! Sinceramente menino, você também é mais burro que o outro.

Corpo vivo, então...

-Você está morto?

-Eu? Ah sim, o gato. Sim, é claro que está morto.

Ele parecia familiar, mas não conseguia associá-lo a nada.Talvez seus pais o tivessem comprado, mas estava preso nesse quarto há tanto tempo que suas memórias ficaram confusas, não tinha certeza. De certa forma, aqueles olhos o confundiam e o deixavam melancólico ao mesmo tempo.

-Podemos conversar agora? Espero não ter matado esse bichano em vão.

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A criança observava atentamente a janela. Mesmo não sendo possível decifrar o que aqueles olhos de fato encaravam com tamanha intensidade, existiam algumas possibilidades.

Primeira, a família Banes. Eram cinco ao total,  o pai, senhor Banes , um executivo tão asqueroso quanto o bigode que cultivava com orgulho, a mãe, senhora Banes, com uma aparência tão jovial quanto as das suas três filhas, nas quais o menino nunca havia se dado ao trabalho de descobrir os nomes.

Todos estavam sentados junto aos seus pais em mais uma confraternização, feita para comemorar – provavelmente – algum dos golpes bem sucedidos do senhor Banes ou o novo esmalte da sua mulher. Adultos não são muito seletivos, não era necessário um motivo realmente significativo para beber.

Motivos funcionavam mais como um meio de aliviar a consciência.

Porém, muito pouco provável que isso o mantivesse tão entretido. Pessoas como os Banes era tão interessantes quanto seus sapatos.

Segunda possibilidade, o encontro às escondidas entre a empregada e o vigia. Atrás das plantas, à uma distância consideravelmente grande da confraternização, Alisson, umas das faxineiras mais velhas da mansão empurrava o seu corpo contra o de Cedric. Ele a impulsionava contra a árvore e ela o prendia com suas pernas, como se enrolasse sua presa.

Seria uma forte aposta, porém, ao contrário dos garotos da sua idade, não sentia tamanho interesse por relações carnais. Sexo, por mais que entendesse os motivos, não conseguia ficar tão entretido com algo tão... sem classe.

Aos 7 anos viu os pais transando. Algo que deveria traumatiza-lo, acabou funcionando como uma excelente oportunidade de entender um pouco mais os adultos. Não correu e permaneceu em silêncio até o fim do ato.

A vida sexualmente ativa que seus pais cultivavam acabou sendo muito útil.  Repetiu isso ao longo da semana e, de fato, aprendeu bastante a ponto de poder formar uma opinião sobre o tão aclamado ato. Aquilo era tremente entediante. A vida adulta deveria ser maçante ao ponto de amarem tanto isso?

-Entre.

Nada. Soltou um suspiro e com passos pesados abriu a porta.

-C-Como  v-você sabia?! – Wendy escondeu algo atrás do vestido e o olhou assustada.

O que seria agora?

-Eu sei de tudo, esqueceu?

-Mas, mas eu... a porta... fechada...

-Por favor, Wen, já não disse para parar de tentar entender? Você ainda é muito nova para isso.

4 anos, na hierarquia juvenil, significavam séculos de diferença.

-Não é justo! – abriu um sorriso – Eu já tenho 8 anos, sabia?

-Como eu esqueceria da festa mais comentada do ano?

-Exatamente. E a aniversariante mais incrível também. Então... – encolheu os ombros - ...eu acredito que já saiba o que estou segurando, né?

-Sim. – na verdade, não.

-Ahhh, droga! Titia disse para eu não mostrar para você. Ela vai ficar tão brava. – tirou um pacote azul das costas e o entregou.

-O que é isso? – balançou a caixa, mas não fez nenhum barulho, provavelmente não era nada frágil.

O presente era feio, mais ou menos do tamanho da sua mão e estava com uma embalagem azul-escuro mal feita. No entanto, algo o chamou a atenção.

-Você não está enganado, é o verdadeiro selo da família.

-Para quem é essa coisa? – seus pais, em especial sua mãe, nunca colocariam o brasão da família em presentes tão triviais quanto esse aparentava ser.

-Sim, sim, eu também me surpreendi quando vi, o selo é algo que vocês levam a sério, certo?

Ela girava o vestido satisfeita, tinha informações preciosas e dessa vez o controle da situação também. Mas acima de tudo, conseguira a atenção de Castiel.

-Parece curioso, Cas, he, he.

-Ande logo Wen, diga para quem é.

-Desculpe, mas você é muito velho para saber.

-Não é hora para isso.

-Eu posso te contar, mas em troca vai ter que me deixar dormir aqui por uma semana. Não, não, isso é muito simples. Talvez... encerar minhas bonecas? Emília precisa de um polimento. Ah! Tem também aquele vestido da sua mãe, sempre quis usá-lo. Ou, ou, ou um bolo! Imagina só, Cas, com morang- Ah!

-Cala a boca Wendy.

Segurou o pescoço da menor com força. Gostava muito da prima, porém odiava jogos, charadas muito menos. Poderia ter tido mais paciência, mas estava sendo um péssimo dia.

Não precisou de mais nada para o sorriso da menor se esvair, ele nunca a chamava pelo nome completo a não ser se tivesse feito algo muito, muito ruim. A última vez que isso havia acontecido, foi há alguns anos, quando ela matou Robin, o gato da família. Mesmo que tentasse explicar que não fora a intenção (no começo), Castiel não a perdoou tão cedo.

Ela não entendia porque ele fora tão dramático quanto a isso, afinal era só comprar um novo. Assim como foi feito meses depois.

-E-Está bem, está bem, só se acalme certo? – ao soltar Wendy a menor tossiu e recuperando o ar retomou a compostura, aquilo deixaria uma marca depois – Por que está tão estressado? Eu só estava brincando, ora.

-Eu não gosto de brincadeiras. Para quem é o presente?

Permaneceu alguns instantes em silêncio. Caso contasse para ele sua tia iria matá-la, mas se não contasse Castiel que iria matá-la, só que literalmente.

-Tal mãe, tal filho, argh... – resmungou – Cas, sabe o que vai acontecer no domingo?

-Wendy, já chega de charadas ou...

-Não! Não é uma charada, idiota. Meu Deus, como você consegue esquecer uma data dessas? Seu aniversário.

-Isso... mamãe não me daria algo tão insignificante e simplório quanto isso e muito menos mandaria você entregar. – porém, poderia ser para...

-Você é tão egocêntrico, Cas. Claro que não é para você.

-Não pode estar dizendo que é para... – sentia nojo apenas de cogitar tal possibilidade – Por que ela mandaria isso para Ele?!

-Não sei, talvez esteja com saudade de Bartho?

-Nunca pronuncie esse nome, me dá ânsia só de lembrar.

-Ha, ha, ha, concordo. – voltou a rodopiar a saia do vestido – Mas sabe, às vezes meio que também sinto falta dele, esse negócio de isolamento é engraçado.

-Qual é o sentido de voltar a falar com ele agora? Todos trabalharam tanto para apagar sua existência! Isso aqui... – balançou a caixa -...é completamente sem nexo.  

-É... – não fazia ideia do que “nexo” significava, mas presumia que não poderia ser algo bom – Bem, de qualquer jeito a Titia pediu para eu entregar isso a ele... quer vir? Seria chato ir sozinha de qualquer maneira.

-Por isso veio até aqui?

-Do que está falando?

-Você pode ser irritante Wen, mas não é burra. O que está tramando?

-He, he, nada dessa vez. Apenas queria ter um encontro magnífico com meus amados primos. – também não sabia o significado de magnífico, mas presumia que não poderia ser algo bom.

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E por fim a terceira – e verdadeira – possibilidade.

Por aquela janela ele observava um ponto negro no meio das margaridas do seu pai, entre a confraternização Bane e Allison. O coelho negro dos meus sonhos. Junto a ele tinha mais uma criatura, uma criatura esquia e alta, completamente negra e com pernas e braços deformados.

A criança, já havia conversado com ambos no Outro Lugar, mas não esperava que o viessem visitar tão cedo.

Seguindo Wendy pelo corredor murmurou para si mesmo:

-Amigos.

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