Wiki Creepypasta Brasil
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Tinha meus doze anos. Nunca iria esquecer aquele dia, o dia em que ganhei meu primeiro cachorrinho. Minha mãe nunca foi afeita a animais, então é de se imaginar o trabalho que tive para convencer ela a adotá-lo. Mas, com persistência e uma ajuda do meu irmão, finalmente a família tinha um novo membro. Um vira-lata preto e bem grande. Claro, quando ele chegou era apenas um filhote, não imaginávamos que ele fosse crescer o tanto que cresceu.

O primeiro desafio foi o treinar para que ele fizesse as necessidades no jornalzinho. Não foi tão complexo assim. Apenas deixá-lo duas semanas confinado em um banheirinho forrado de jornal e estava feito. Agora não havia mais preocupação com sujeira, certo? Bem não exatamente, ainda havia alguns acidentes de vez em quando – mas eles ficaram cada vez mais raros com o tempo.

Bem, depois disso, ainda faltava escolher o nome do bichinho. Minha mãe queria chamá-lo de Snoopy. Já meu irmão achava que Thor era um nome que combinava com ele. Mas eu, pirado em Chaves, queria um nome do programa. Minha primeira ideia foi chamá-lo de Madruguinha – o nome do cachorro do Quico, em um dos episódios. Mas me ocorreu uma outra ideia, um nome mais ousado e um tanto quanto sinistro: Satanás! Sim, o cachorrinho da Bruxa do 71.

Desnecessário dizer que minha mãe, religiosa como era, detestou o nome. Porém, como toda criança nessa idade, achava que desafiar meus pais era a coisa mais engraçada do mundo, então mantive o nome do animal. Além disso, só para provocá-la, ficava gritando, assim como a Dona Clotilde: “Satanás! Onde está você, Satanás? Por onde anda, Satanás?!”.

Toda vez que minha mãe me escutava o chamar ela me dava uma bronca e dizia que não devíamos brincar com esse tipo de coisa. Segundo ela, falar esse tipo de coisa era invocar o próprio anjo caído, que Deus expulsou do Céu por causa de sua vaidade e rebelião. Estaria eu abrindo a porta para o inimigo por causa de uma piada de um humorista mexicano?

Bem, naquela época achava que não. Não que eu fosse ateu ou algo do tipo. Até hoje frequento a Igreja Católica. Mas, quando se tem doze anos, não se leva nada a sério – principalmente algo que seus pais falam. Por que adolescente e crianças conseguem ser tão imbecis assim? Olhando em retrospecto, não havia necessidade nenhuma de fazer algo assim, só insisti para irritar minha mãe.

Então um belo dia de domingo, depois da Liturgia, Dona Nadja, minha mãe, resolveu contar para nosso padre o ocorrido. Lembro até hoje quando o Pe. Paulo Renato, um senhor calvo e com expressão severa, veio falar comigo.

Nunca gostei dele, para falar a verdade. Ele sempre foi muito rígido e nada compreensivo, além de sempre fazer ameaças veladas e tratar todos que não concordavam com ele como inimigos. Era um hipócrita de primeira categoria e se achava o santo na terra. Comemorei muito quando ele foi mandado embora da paróquia.

Voltando ao ocorrido, naquele dia esperava um sermão do pe. Paulo e até mesmo uma bronca. Mas sua atitude foi muito diferente, com um olhar de condescendência (e mesmo um certo medo) ele disse de forma calma e solene: “Meu filho, tome cuidado, pois as palavras têm poder”. Apenas isso e mais nada, ele nunca mais tocou no assunto. Na época não dei atenção, apenas mandei ele a merda mentalmente – como fazia sempre. Apesar de detestá-lo, o tempo mostrou que, naquele dia, ele estava com a razão.

Mas, não! Apenas ignorei e levei minha vida normalmente com Satanás. Continuava a chamá-lo do mesmo jeito e minha mãe continuava se irritando, gritando para que eu parasse com aquilo. E, toda vez que isso se repetia, eu caia na risada.

Bem, o tempo passou e minha mãe se “acostumou” com isso – apesar de não esconder seu desconforto com o que acontecia. Ao invés de gritar, ela só repetia as palavras do padre: “Cuidado, filho. As palavras têm poder!”. E eu continuava ignorando. Afinal, já haviam se passado tantos anos e nada de errado havia acontecido, por que deveria acreditar nisso?

Acontece, que ontem à noite algumas coisas fizeram com que me arrependesse do que fiz. Agora, estou com 24 e Satanás já tem 12 anos. Ele já está velhinho e acho que não vai ter mais muito tempo.

Estava sozinho em casa, pois meus pais foram visitar uma amiga e meu irmão estava no motel com a namorada, quando houve um apagão. Sinceramente, não era algo incomum, a casa já é velha e vivem caindo os disjuntores. Fui para cozinha pegar algumas velas e um pouco de whisky do meu pai – na falta de algo melhor para passar o tempo.

Porém, um barulho na porta da cozinha que dava para o quintal me assustou tanto que quase dei um pulo no meio da sala. Eram batidas muito fortes, como se algo estivesse desesperado para derrubar a porta e entrar. Passado o choque, imaginei que fosse meu amigo que quisesse entrar. Achei que seria uma boa ideia que ele ficasse comigo, afinal nunca gostei de ficar sozinho no escuro. Então, o chamei como de costume: “Satanás? É você, Satanás?”. Nenhuma resposta. Abri a porta e não vi nada nem ninguém lá, então o chamei de novo: “Satanás! Onde está você, Satanás?”

Mas o que aconteceu em seguida é algo que me arrepia até agora: senti uma respiração e um toque no meu pescoço. Devia ser só minha imaginação, não era possível que alguém tivesse entrado em casa! Me virei e não sei dizer se vi um vulto correndo ou se foi apenas minha mente pregando uma peça. Senti uma presença, uma aura, que me induzia um pavor muito grande. Corri para a sala, mas a sensação não passava. Algo estava se aproximando...

Senti uma vertigem muito grande e minha visão foi se turvando. A pouca luz que vinha do luar pelas janelas desaparecia lentamente, mas a escuridão que tomava conta de minha visão era diferente de tudo que presenciei na minha vida. Ela era ...  fantasmagórica, como se tivesse tomado forma. Aquilo era demais para mim, em um momento tudo escureceu e não me lembro de mais nada, o pavor devia ser tão grande que devo ter desmaiado.

Acordei no dia seguinte, deitado no sofá da sala de estar. Tudo parecia normal, o carro na garagem indicava que meus pais já tinham voltado e a porta do quarto deles estava trancada, o que queria dizer que ainda estavam dormindo.

Fui para a cozinha, pegar uma água e tentar me recuperar do choque. Devo ter entrado em pânico noite passada, tive uma crise de ansiedade, só podia ser isso. Mas enquanto tentava me convencer de que tudo não passava de uma invenção do meu cérebro, notei um pequeno bilhete, em um papel velho e manchado, escrito com tinta (se é que era mesmo tinta) vermelha. Me aproximei e, quando peguei o pequeno cartão para ler o que estava escrito, meu sangue gelou! Nele estava escrito:


“Invocasti nomen meum, hac nocte mihi, principi mundi, dedicata. Sum hic et hic manebo. Mane tuta nocte si potes".

Seja lá o que isso signifique, não é possível que possa ser algo bom. Desde ontem que me sinto observado. Não sei o que está aqui, mas ele chegará à noite e se esconderá nas sombras, como da última vez.

Por doze anos eu o chamei, devia saber que uma hora ele iria vir. Se pudesse voltar atrás... Como gostaria de ter ouvido minha mãe.

A lição que tirei disso tudo? Nunca subestime o poder das palavras. Elas podem trazer à tona coisas que, uma vez despertadas, nunca mais voltam a dormir. E para você que está lendo isso, fica o aviso: tenha cuidado com o que você chama no escuro. Porque as palavras têm poder e pode ser que, um dia, algo responda.

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